terça-feira, 31 de julho de 2012

Especial - Ademir Assunção - Eu quero ser pluma na pele dos meu amigos


Por: Rodrigo Brandão
Fotos: Naiara Assunção
7/1/2010 - fonte:  www.revistaboemia.com.br
Não se trata de título. São versos. Vêm do belíssimo Aqui Jazz o Poeta, do livro Zona Branca, do jornalista e, obviamente, poeta araraquarense Ademir Assunção. De modo que há controvérsias sobre ter nascido em Araraquara. O vagão... Nasceu vagando? Depois de trabalhar em uma série de veículos da chamada grande imprensa – Folha, Estadão, Veja (“o pior lugar em que já que trabalhei; revista manipuladora do caralho”) –, Ademir, companheiro de boemia de Paulo Leminski (de quem foi bastante amigo) e Itamar Assumpção, vaga hoje em São Paulo pelo mundo da poesia. Aliás, Aqui Jazz é flor no deserto. Versa sobre a alegria, quando o universo dos poetas, salvo exceções, rege-se por nostalgias, bucolismos e melancolia. “Sorrindo (como pôr-do-sol)”, canta outro trecho do poema. Origem? Pouco importa. “Só porque a alegria é um dom”. Ademir é filho ilustre. “Só porque ou sim ou não”.


“Virgem Maria, que foi isto maquinista?”, perguntaram Manuel Bandeira e Tom Jobim no poema-som Trem de Ferro. Ademir Assunção responde. “Reza a lenda que vim ao mundo em um vagão”. À luz de maneira sugestiva, poética e errante. Em tempos de discussão sobre a retirada dos trilhos do centro de Araraquara, e mais precisamente sobre como urbanizar, como utilizar a área, aqui está um instigante abre para este perfil.
“Meu pai era ferroviário, aposentou-se na ferrovia. Por isso eu tinha passe livre para viajar de trem. Parte da minha família era de Borboleta, hoje Bady Bassitt, uma cidadezinha ao lado de São José do Rio Preto. Borboleta é um nome muito mais bonito, não? Meus irmãos iam pra lá nas férias, para a 
casa dos meus tios e tias, que moravam na zona rural. E diz a lenda que, em uma dessas viagens, minha mãe entrou em trabalho de parto e eu acabei vindo ao mundo dentro de um trem”.
Nem a paisagem nem a infância em Araraquara influenciaram sua poesia, cujas marcas principais podem ser o acúmulo mínimo de palavras, decorrente de escolhas antes racionais, diante do tema, depois sensoriais, uma vez que imagem e som fundem-se ao fundo. “Torquato Neto e Paulo Leminski são mais do que influência. Representam para mim a descoberta e a paixão pela poesia, a qual descobri ainda em Araraquara, antes de me mudar para Londrina, onde fui estudar Jornalismo. Eles determinaram não só a linguagem mas também o comportamento. De Araraquara, percebo somente, quando releio alguns versos bem depois de escritos, escuto lá no fundo o ritmo, o estralar dos trens nos trilhos”.

deixe que o sol se          deite
sobre seu leito               deixe
que eu beba o               leite
do seu corpo                 deixe
que o calor do               beijo
dissolva a bruma          deixe
que ao cair a noite        eixe
suor e seiva                   dor nenhuma

(noite&dia, AA, do livro LSD Nô)

Ademir, por ele mesmo, nasceu em Araraquara e renasceu em Londrina. Foi no Paraná que passou a se envolver mais seriamente com poesia. Ainda em sua terra natal, porém, foi trabalhar como datilógrafo em um escritório de paisagismo rural, onde conheceu o poeta Anael Aquino. “O Anael, sim, lia muita poesia. E me apresentou à poesia. Antes, eu acreditava que, para ser poeta, era preciso, antes de tudo, estar morto. Porque na escola só estudávamos poetas mortos há muito tempo. Lembro-me de uma reunião, em Araraquara, havia um projeto para a formação de uma cooperativa de escritores, e o Hélio Leite, artista plástico, uma instalação viva, o Hélio me falou sobre o Paulo Leminski, isso era 1979. Leminski era pouco conhecido. Só havia publicado seu primeiro livro, Catatau”.

velha lamparina
vela a chuva na janela à toa
entrelábios flora rara trança loura
belamiga rindo rindo rindo rindo me desfolha
lingerie despida breve brisa sei minha face crispa
e doura

(londrix 79, AA, do livro LSD Nô) 
Outras esferas. Simultâneas?
Já formado, Ademir foi para Curitiba entrevistar Alice Ruiz, esposa de Leminski à época. “Tornei-me amigo do casal. Até que ele veio para São Paulo, em 87. Morou na casa da Fortuna, cantora, que era minha namorada. Como eu não saía de lá, começamos a conviver diariamente”.
Poesia em todos os espaços do Itaú Cultural, cada espaço preenchido, por mais maluco, mais inusitado. Chão (sim, a terra, a base!), paredes (referências), teto (limite?), porta do banheiro (segredo?). Músicas, compostas só por Leminski ou em parceria, Itamar Asumpção, Moraes Moreira, Ney Matogrosso, Edvaldo Santana, Bernardo Pellegrini, Neuza Pinheiro. E cadernos. E anotações. E correções, ainda pulsantes em riscos vermelhos.
“Paulo Leminski era brilhante. Não era poeta de fim de semana. Era poeta em tempo integral. Não via a poesia como hobby. Qual um Rimbaud, um Maiakóvski, a poesia era o centro da vida dele”.
Não por viver de poesia, mas por viver poesia, Leminski passou por uma situação financeira difícil, ficou duro. “O Renato Barbieri, que é de Araraquara, convidou-me para fazer o roteiro do Jornal de Vanguarda, um diário cultural para a televisão. Eu estava com o Paulo no apartamento, bebendo e conversando, e perguntei se ele poderia me dar umas dicas para escrever o roteiro de um programa piloto, número zero. No dia seguinte, quando acordei, o roteiro estava pronto. Ao invés de simplesmente me dar algumas dicas, o Paulo escreveu o roteiro inteiro. Ele era muito disciplinado. Acho que tinha adquirido essa disciplina nos anos que passou no mosteiro de São Bento. E também através do treino de judô, no qual era faixa-preta. Ele podia ficar bebendo até quatro da manhã. Às nove horas em ponto do outro dia, lá estava ele em frente à máquina de escrever. Eu tinha acabado de sair do Estadão, tinha uma grana de reserva e estava muito mais interessado em desenvolver minha poesia. Então, disse a ele: ‘Porra, você escreveu o roteiro inteiro, por que não pega esse trampo?’. Ele hesitou um pouco, ficou preocupado comigo, mas acabou aceitando. E pegou o trampo, que o ajudou por um ano, o tempo em que o jornal esteve no ar. Alguns quadros, feitos por ele, comentários sobre literatura, estiveram na exposição”.
Exposição? Ademir e Paulo, outra esfera, encontraram-se novamente. Paulo Leminski: 20 Anos Em Outras Esferas, da qual Ademir foi curador, permaneceu no Itaú Cultural, em São Paulo, em outubro e novembro de 2009. A mostra consagrou-se como uma verdadeira celebração, nessas duas décadas após a morte de Paulo. Morte? “Nunca conheci nenhum poeta com a intensidade de Paulo Leminski. Ele transformou a vida dele em linguagem. Continua mais vivo do que muitos vivos por aí”. 
 


Ademir Assunção pode ser encontrado nos seguintes endereços eletrônicos:
zonabranca.sites.uol.com.br (website) ezonabranca.blog.uol.com.br (blog). A exposição Paulo Leminski: 20 Anos Em Outras Esferas foi planejada de modo que seus materiais possam ser reaproveitados. Aos interessados, o contato já foi acima inserido.
 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

pontal atafona

foto: aluysio abreu barbosa


Conhecido cientificamente como transgressão marinha, desde que o avanço do mar teve início, ainda nos anos 60 do século passado, na praia de Atafona, no município de São João da Barra, muitas são as saudades que nem o oceano Atlântico conseguiu submergir. A última delas, começou a bater ontem, junto com a força das ondas que destruíram o piso do Bar do Bambu, instalado há cinco anos e meio na antiga casa de barco da família Aquino, última construção que ainda se mantinha de pé no Pontal, mágica faixa de areia entre o oceano Atlântico e o rio Paraíba do Sul, famosa por reunir no mesmo espaço veranistas, pescadores, beberrões, famílias, amantes e poetas.

Desde que Neivaldo Soares, o "Bambu", se instalou de mala e cuia na construção, há cinco anos e meio, para lá instalar sua casa e seu bar, o local serviu como ponto de encontro obrigatório e libertário para todos que buscavam o Pontal para apreciar sua inigualável beleza natural, beber uma cerveja gelada, desgutar peixe ou camarão sempre frescos e fritos na hora, além de ouvir as muitas histórias contadas pelo dono do estabelecimento. Quase sempre verborrágico, sobretudo quando aditivado por uma caninha, mesmo quando fantasiava, Neivaldo, como genuíno poeta de vida, endossava Cazuza, poeta da vida e do verbo: "Mentiras sinceras me interessam".

Foi com a poesia, aliás, que o Bar do Bambu teve seu ponto alto. No verão de 2010, com a peça "Pontal", dirigida por Kapi, interpretada por Yve Carvalho, Sidney Navarro e Artur Gomes, com poemas de Aluysio Abreu Barbosa e Adriana Medeiros (além dos próprios Kapi e Artur), com patrocínio da Prefeitura de São João da Barra, o estabelecimento conheceu seu maior público, com média de 80 pessoas por cada apresentação de quinta a domingo, que se estendeu por um mês. A partir dali, de lugar alternativo, majoritariamente buscado por jovens, o espaço passou a ser também a ser frequentado por famílias e casais de meia idade, seduzidos pela beleza natural do lugar, pela decoração originalíssima do bar, com cascos de tartaruga, mandíbulas de tubarão e ossos de baleia, e pelo papo de Neivaldo.

Despejado pelo mar, o projeto de Neivaldo agora é atravessar o rio, se mudando mais uma vez de mala e cuia para a casa que já comprou na ilha do Pessanha, segundo ilhota da foz do Paraíba, depois da ilha da Convivência, ambas pertencentes ao município vizinho de São Francisco de Itabapoana. Quanto às ondas nascidas da cruza entre Netuno e Iemanjá, que ontem encerraram o fim da sua era no Pontal, seu último filósofo respondeu com a mesma generosidade com que sempre acolheu os fregueses do seu bar: "A natureza é singular e soberana. Continuo adorando ela!"

Aluysio Abreu Barbosa



quinta-feira, 26 de julho de 2012

terra



entre/aberto
em teus ofícios
é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas
minha veia mais aberta
é mais um rio que se espalha

amada
de muitos sonhos e pouco sexo
deposito a minha boca no teu cio
e uma semente fértil
nos teus seios como um rio

o que me dói
é ter-te
devorada por estranhos olhos
e deter impulsos
por fidelidade

ó terra incestuosa
de prazer & gestos
não me prendo ao laço
dos teus comandantes
só me enterro a fundo
nos teus vagabundos
com um prazer de fera
e um punhal de amante

arturgomes

quarta-feira, 25 de julho de 2012

tecidos sobre a terra




terra
antes que alguém morra
escrevo prevendo a morte
arriscando a vida
antes que seja tarde
e que a língua da minha boca
não cubra mais tua ferida


arturgomes
http://valepoetico.blogspot.com.br/2012/07/tecidos-sobre-terra.html

quarta-feira, 18 de julho de 2012

a lavra da palavra quero



re-invento a palavra ana
que seja mais que sagarana
na minha melhor sagaranagem
onde nela possa o tempo
re-inventar o que posso
 na língua dessa   linguagem



re-invento a palavra claudia
na lavra que ela mais gosta
pode ser que seja vento
fogo brisa tempestade
dama de espada do jogo




re-invento a palavra lobo
muito mais que liberdade
amor desejo saudade
onde quer que lá esteja
a palavra que deseja
onde eu mais possa criar
xangô oxum na mesma água
se alimentando das algas
que re-inventamos no mar 


artur gomes
www.poeticasfulinaimicas.blogspot.com

II FESQUIFF - programação


segunda-feira, 16 de julho de 2012

quarta tem sarau no quarto


o Tropicalirismo de Artur Gomes
com Mário Pirata - participação especial: May Pasquetti
Dia 18 de julho de 2012 às 19h
4º andar - Sala o Retrato
Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo
Rua dos Andradas, 1223 - Porto Alegre-RS

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Palhaçada Federal


foto: Adilson Felix

Grupo Os Panthanas apresenta espetáculo circense que fala sobre eleições esse fim de semana gratuitamente em Santos


Sinopse:

Dois palhaços tradicionais circenses, cansados com as dificuldades da vida artística, tentam encontrar uma forma de sobreviver. Fuxico, de olho nos altos salários e facilidades, convence Chevete que a melhor solução está na carreira política e decide se candidatar a presidência da república. Nesta sátira a trajetória da campanha é apresentada criticando os corruptos, à situação política do Brasil e evidenciando a função do artista na sociedade.

Sobre o tema:

Tendo como tema central o cenário político brasileiro e as eleições, os atores criadores Junior Brassalotti e Sidney Herzog se utilizam da estrutura dramatúrgica de circo teatro e da máscara cômica para a composição dos palhaços Fuxico e Chevete.

Baseado nas características do palhaço e com olhar sobre o dia a dia da política no Brasil, utilizamos como base para a pesquisa cadernos de política, imprensa escrita, virtual e televisiva que expõem alguns fatos e situações que serviram como fonte para os assuntos apontados na montagem. A linguagem do palhaço com um roteiro de pesquisa de acontecimentos do cotidiano, para a dupla, é sempre o ponto de partida.


 Sobre o grupo:

Os Panthanas – Núcleo de Pathifarias Circenses é o primeiro grupo da Baixada Santista de pesquisa da linguagem circense, nasceu na Escola Livre de Circo em Santos em Abril de 2005.

 Essa oficina, ministrada pelo Núcleo Pavanelli de São Paulo, teve como objetivo implementar na cidade através da Oficina Cultural Regional Pagu uma Escola de Circo com aulas permanentes e que proporcionasse aos participantes uma capacitação profissional, para execução de números circenses, espetáculos e formação de instrutores.

 Formaram no início de 2005 o grupo Os Panthanas, foram mais de 100 apresentações por todo a Baixada Santista e Estado de São Paulo, em ruas, palcos, praças e festivais, que conferiram ao grupo experiência e maturidade artística e a convicção pela opção de levar o circo para as praças e palcos do Brasil.

 O grupo ganhou em 2010 o Prêmio Plínio Marcos de Melhor Grupo Circense e de Melhor Espetáculo de Circo para “Brasileirinho”, seu 1º espetáculo que também deu ao grupo o 2º lugar no Festival Nacional de Teatro de Rua de Mogi das Cruzes.

O espetáculo estreou em Março em Santos, já se apresentou no Estado do Rio de Janeiro e está com apresentações agendadas em São Paulo em Julho.


 Ficha técnica:

Direção: Marcos Pavanelli e Simone Brittes Pavanelli

Elenco e dramaturgia: Sidney Herzog e Junior Brassalotti

Fotos: Adilson Felix

Serviço:

Espetáculo: Uma palhaçada federal

Grupo: Os Panthanas – Núcleo de Pathifarias Circenses

Local e data: Sábado, dia 14 de Julho, na Conselheiro Nébias com a Praia no Boqueirão e Domingo, dia 15 de Julho, na Feirart em frente ao SESC Santos

Espetáculo com entrada franca

Horário: 18hs

Classificação etária: Livre

No caso de chuva a apresentação será transferida para uma outra data.
Realização: Prefeitura Municipal de Santos, Secretaria Municipal de Cultura.
Apoio Cultural: Athos – Núcleo Artístico, Espaço Teatro Aberto, Núcleo Pavanelli, Associação Cultural Olhar Caiçara, Santos Convetion & Visitours Bureau, A Confraria Produções e Oficina Cultural Pagu.
Maiores informações sobre o Grupo, visite nosso Blog: http://ospanthanas.blogspot.com.br/


@curtasantos
55- 13- 3018 90 20 
junior@curtasantos.com.br
msn: contaprojr@hotmail.com
@jrbrassalotti
Skype: junior.brassalotti1
Facebook.com/Junior.Brassalotti 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

curtas de artur gomes com pescadores de Gargaú



Jogo de Búzios



ogum não permitiu que iansã
doasse o coração para xangô
e deu-se num trovão pela manhã
o seu amor oxossi em cada um
exu de sangue e ferro
então mandou cortar meu coração
em mais pedaços
assim se fez sem nenhum berro
por isso tens-me aqui entre os seus braços
oxalá então cantou vendo a magia
fez a terra estremecer de africania
américa quem sabe porque canto de alegria
quando choram nos meus olhos
todos mares da Bahia
fazendo um doce mar ficar oxum
um velho doce mar ficar oxum

arturgomes/paulo ciranda




Todo o Amor Que Houver Nessa Vida
Cazuza/Frejat
Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria
EntriDentes


queimando em mar de fogo me registro
bem no centro do teu íntimo
lá no branco do meu nervo brota
uma onde que é de sal e líquido
procurando a porta do teu cais

teu nome já estava cravado nos meus dentes
desde quando sísifo olhava no espelho
primeiro como mar de fogo
registro vivo das primeiras eras
segundo como flor de lótus
cravado na pele da flor primavera
logo depois gravidez e parto
permitindo o Logus quando o mar quisera

arturgomes

terça-feira, 10 de julho de 2012

ALDEIA GRANDE



“É preciso dividir felicidade, é preciso interfeliz nessa cidade” – (Aljor)
  
Que grande aldeia é essa? Que  potência transformadora esse novo-homem-velho, interconectado e autônomo traz? Essas perguntas provavelmente já estão sendo respondidas de diversas formas, sob vários tipos de olhares, leis, políticas públicas (mesmo que débeis e corrompidas), por códigos formais ou informais, e que de alguma forma problematizam  e intensificam a diversidade destes tempos movimentados do agora, com sua impermanência e ressignificados .

 Tudo isso impulsiona inexoravelmente, os muitos ( velhos e novos) fazeres humanos, provocando uma espécie de rede de força sinérgica e contínua, que alimenta uma teia de  muitas diferentes formas , modos e gestos  culturais no interminável dialogo das maneiras várias.


  O homem aldeia-subúrbio-local hoje pode  amplificar seus signos, conectar suas antenas-cabeças-corpos , dinamizar seus diálogos e deixar de ser invisível ao se apoderar dessa mala de ferramentas tecnológicas (antiquíssima), que de certa forma, está mais disponível , propondo interferências e interações renovadas.
  
O homem urbano pode  deixar de ser esse indivíduo-produto-beneficiado das enormes máquinas-cidades de moer gente, pode  deixar de ser esse corpo inerte sem cabeça urbano, encaixotado em edifícios-cavernas e passar continuadamente a questionar os modelos dominantes de vida contemporânea em cidades, corroendo as fundações dessas macroestruturas capitalistas condensadas  em argamassas políticas, que domesticam  e administram seu homogeneizado cotidiano. E, ao resgatar suas múltiplas vozes  e conectá-las, como nos maravilhosos pequenos movimentos estratégicos e pedagógicos das aranhas, com suas teias incríveis que se espalham ali pelo quintal, ele também se modifica e modifica os seus ambientes.

 A Aldeia Grande é música irresponsável e poesia em experimentação, são movimentos inquietos, diversos, partindo dos múltiplos olhares suburbanos.
  
Aldeia Grande é o indivíduo-coletivo, é o homem multicultural, é a diáspora na sua dimensão planetária, é o tempo em movimento, é a reinterpretação das diversas realidades partindo do lugar, é o reconhecimento da geografia única dos ambientes  de vida comum nas periferias,é diálogo direto atemporal com as multiplicidades das configurações urbanas, é política, é arte, é Africárea, é o umbigo do planeta por onde todas coisas saem e entram infinitamente num movimento de renovação constante .
     
E mais ainda, é uma ambiência onde o agora  estará sempre ancorado na  impermanência de qualquer momento ou lugar,  é nossa memória-movimento  estampada em gestos comuns, e que permanece reinventada, como muitos toques dos tambores dos mundo, numa elipse infinita, sem tempo ou lugar .


MARKO ANDRADE
ALDEIA GRANDE

quarta-feira, 4 de julho de 2012

metáfora quase poesia - mel da vida inteira




na cama ontem abracei a tua ausência
agarrado ao travesseiro
pensando tua boca melada 
com todo mel do engenho
sentindo que ainda tenho
 desejo dos beijos     roubados
em noite de namorados quantas sonhei
teu corpo num pomar de frutas secretas
mangas pêssegos jabuticabas amoras
quero comer como outrora até mergulhar comigo
lá no mar do teu mais íntimo
porto inseguro do teu cais
em pleno vão do teu umbigo minhas unhas tuas coxas 
lambendo o sexo pelas costas
no litoral do teu pescoço
do teu corpo quero a pele a carne o sangue
da medula até o osso 


arturgomes
www.tvfulinaima.blogspot.com


segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Olho Azul do Mistério


foto: artur gomes


desço dos céus para beijar
os lábios quente da fera – desço,
vejo dragões pastando na grama
azul, incêndio nas cortinas
dos apartamentos – desço,
escuto um coro de crianças
bêbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Última Utopia – vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pânico, mãos
de neblina, pálpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios – escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande Gavião Terena, leopardos
lambem o leite da Via Láctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de Vênus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida canudinhos cedidos
pelo senhor Mc Donald – sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na água, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monótona dos aparelhos
de televisão, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na câmara
oca de ecos, a apele se arrepia, relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério

Ademir Assunção
In A Voz do Ventríloquo

Mostra Terra Forte


Renata Becker em cena do filme Água gravado no projeto Shortfilms

Em julho estrearemos dois curtas-metragens: “Água” e “Dança, Café e Torradas” produzidos no Projeto SHORTFILMS do mês de abril.
Convidamos outros exibidores a participarem da Mostra Terra Forte “5 Minutos”.
Envie o link de seu curta-metragem de até 5 minutos para audiovisual@estudioterraforte.com.br ou entregue em DVD no próprio espaço até dia 10/07.
A Mostra Terra Forte “5 Minutos” acontecerá dia 13 de julho no Estúdio Terra Forte, a partir das 20h, seguido de bate-papo sobre os filmes e música ao vivo.

ESTÚDIO TERRA FORTE
RUA CAPOTE VALENTE, 703
11 – 2503-8550 / 7883-1784