terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Inferno de Fernando Pimentel coincide com guerra no PT mineiro

Denúncia de que faturou com consultoria surge em ambiente conflagrado. Petistas de Belo Horizonte e na Assembleia Legislativa querem distância do PSDB e da reeleição de Marcio Lacerda (PSB) em 2012. Prefeito elegeu-se com vice do PT, com quem brigou, e apoio tucano, em insólita aliança costurada por Pimentel. Aliado do ministro, presidente do PT em MG prega 'convergência' e entra na mira de deputados. Dilma quer segurá-lo, mas Pimentel sente o golpe.
BRASÍLIA – Amigo da presidenta Dilma Rousseff como nenhum outro ministro, Fernando Pimentel (Desenvolvimento) vive um inferno astral desde domingo (4), quando um jornal noticiou que ele tem uma firma de consultoria com a qual faturou R$ 2 milhões entre 2009 e 2010. Por uma situação parecida, em que se insinua que consultoria era fachada para tráfico de influência, Dilma perdeu seu ministro mais poderoso logo no início do mandato. 

Pelo que veio a público até agora, Dilma está disposta a segurar Pimentel e considera a situação "resolvida", disse um ministro à Carta Maior. Incerto é se o ele mesmo vai querer continuar exposto, sabendo que há um noticiário a investigar sua vida pessoal e que é protagonista, mesmo à distância, de um ambiente conflagrado no seu partido em Minas Gerais, o PT. 

No centro da disputa estão a eleição para prefeito de Belo Horizonte no ano que vem e as relações do PT com o PSDB em Minas. De um lado, o vice-prefeito, Roberto Carvalho, e a bancada de deputados estaduais petistas, comandada por Rogério Correia. Eles defendem uma atitude mais combativa contra os tucanos e chapa própria em 2012. 

De outro, Pimentel e o presidente do PT no estado, deputado federal Reginaldo Lopes, inclinam-se à reeleição de Marcio Lacerda, do PSB. O prefeito elegeu-se em 2008 com apoio do então prefeito e hoje ministro, numa aliança informal com o PSDB que sepultara a esperança de setores petistas de mais uma gestão do partido na capital mineira.

Na tentativa de viabilizar uma chapa própria - ou, no mínimo, sem o PSDB, formal ou informalmente - Roberto Carvalho fez um movimento ousado que levou praticamente ao rompimento dele com Lacerda. Procurou o deputado federal Leonardo Quintão (PMDB), justamente o adversário batido por Lacerda no segundo turno de 2008, para discutir uma aliança em 2012. 

Depois de contatos de bastidores, os dois reuniram-se dia 24 de outubro, acertaram os ponteiros e divulgaram uma carta conjunta, com uma espécie de programa de governo. 

Sentindo-se traído, Lacerda, que é candidato declarado à reeleição, partiu para a retaliação. No dia 3 de novembro, demitiu cerca de 20 funcionários do gabinete do vice. Em nota, justificou: “Há uma determinação explícita a todos os servidores para que a sucessão eleitoral do próximo ano não prejudique a administração da cidade”.

Dias depois, o diretório municipal do PT em Belo Horizonte, que é presidido por Carvalho, reagiu, insistindo na tese da candidatura própria. Também em nota, disse que “o ato de demissão visa sobretudo calar as razões do documento aprovado por unanimidade pelo diretório municipal”. 

Acordo insólito

O documento mencionado defende a candidatura própria “em uma aliança de todos os partidos que compõem o apoio à presidenta Dilma Rousseff, incluindo o PSB, excluindo, por todos os motivos, uma futura aliança com o PSDB, feita formalmente na chapa ou por vergonhoso artifício, através de acordos secretos na informalidade.”

O trecho “acordos secretos na informalidade” é a senha para entender o inferno do Fernando Pimentel. Foi o ministro quem, em 2008, comandou a incompreensível – para diversos setores do PT, dentro ou fora de Minas – aliança com Marcio Lacerda, em torno da qual também estava o PSDB, graças ao hoje senador Aécio Neves. Uma aliança que, pelos movimentos do presidente do PT no estado, Reginaldo Lopes, aliado de Pimentel, não teria problema em ser renovada em 2012.

No dia 30 de outubro, depois do pacto Carvalho-Quintão e antes das demissões retaliadoras, Lopes participou de um grande encontro com empresários e o governador Antonio Anastasia, apadrinhado de Aécio. Saiu dali falando em “convergência” em torno de uma “agenda Minas”. 

Foi um sinal preocupante para os defensores da candidatura própria do PT em Belo Horizonte, que captaram no gesto a possibilidade de uma intervenção no diretório municipal contra a dobradinha com o PMDB.

O encontro e as palavras de Lopes revoltaram a bancada do PT na Assembleia Legislativa, que afinal vive de fazer oposição a Anastasia. Os deputados mandaram uma carta ao diretório estadual cobrando que se reúna e discuta o comportamento de Lopes, considerado hoje uma espécie de traidor.

Consultoria ou tráfico de influência?

Este era o pano de fundo da política petista e mineira, quando, a partir do dia 4 de dezembro, Pimentel passou a ter sua conduta ética colocada em dúvida pelo jornal O Globo com reportagens feitas pela sucursal do jornal em Minas. 

A “denúncia” central diz que o ministro ganhou muito dinheiro com uma consultoria, chamada P-21, e sugere que os clientes da empresa só a contrataram para fazer negócios com o poder público usando a influência de Pimentel. E entre os clientes há quem tenha mesmo ganho licitação em Belo Horizonte.

O jornal continuou a publicar reportagens por vários dias, com informações que, pela natureza delas – faturamento de empresa, notas emitidas –, parecem ter saído da prefeitura, que recolhe o Imposto Sobre Serviços (ISS) e, portanto, tem acesso a dados dos contribuintes.

Desde o primeiro dia, Pimentel reagiu de forma bem diferente à que se viu no caso Antonio Palocci, alvejado por denuncia similar. No mesmo domingo da denúncia inicial, chamou a seu gabinete em Brasília um jornalista de O Globo e deu entrevista para se explicar – Palocci só falou com a imprensa três semanas depois. E deu o nome dos clientes, algo que até hoje o ex-chefe a Casa Civil não fez. Falou tanto, que depois O Globo faria nova “denúncia” sobre um cliente que o próprio ministro revelara ao jornal.

Além da reação, a situação de Pimentel tem um elemento fundamental a distingui-lo do caso Palocci: o ministro prestou consultoria quando não tinha cargo público, portanto, como ele traficaria influência? Já o ex-ministro foi consultor e deputado ao mesmo tempo. 

Esse aspecto - a falta de cargo público durante a consultoria - foi bastante enfatizado pelos aliados do governo Dilma Rousseff quando, na quarta-feira (6), a oposição tentou – e fracassou - convocar Pimentel a depor à Comissão de Fiscalização e Controle.

Mas a defesa do ministro exibe uma fragilidade. Pimentel tinha um sócio na consultoria, Otílio Prado, que era assessor especial de Marcio Lacerda - era porque, depois da descoberta, se demitiu - e, em tese, um elo entre os clientes da P-21 e os órgãos públicos.

Posição de Dilma

Fernando Pimentel já conversou com a amiga-presidenta sobre sua situação duas vezes. Uma no domingo, primeiro dia de inferno astral, outra nesta quinta-feira (9). Um ministro disse à Carta Maior que, do ponto de vista da presidenta, "hoje, a situação está resolvida”. 

Segundo uma outra fonte do Planalto, porém, o problema é o estado de espírito de Pimentel e a disposição dele para seguir exposto à linha de tiro das investigações midiáticas. Esta fonte viu Pimentel na quinta-feira e achou que o ministro parecia abatido. Contou ainda que Pimentel sabe que um jornal está a investigar sua vida pessoal.

Diante do histórico recente de ministros alvejados pela imprensa, duas coisas podem mudar o futuro de Pimentel ou obrigar Dilma a mudar ela mesma a forma como reage a denúncias contra auxiliares.

A primeira é a Comissão de Ética da Presidência, que foi acionada pelo PSDB para que dê um parecer sobre a situação. No caso Palocci, que era similar, abriu uma investigação, embora não tenha dado publicidade à época – só se soube por uma ata da reunião divulgada quando Palocci já tinha deixado o governo. Já no recente caso Carlos Lupi, concluiu que a situação merecia demissão. E isso aconteceu.

O outro fator de influência também tem o PSDB na origem. O partido pediu ao Ministério Público do Distrito Federal que instaure um inquérito. Preferiu ir ao MP-DF, em vez de recorrer à Procuradoria Geral da República, o que foi a regra o ano todo, talvez porque a PGR tenha rejeitado averiguar no caso Palocci.

A opinião dos dois órgãos será decisiva para que se saiba algo mais importante do que o futuro de um ministro. Dilma vai terminar 2011, e portanto entrar em 2012, refém da linha “faxineira”? E, principalmente, vai fazer isso tendo um amigo na berlinda, em vez dos “corruptos do Lula”, que muitos disseram – inclusive nos bastidores do governo – que eram os alvos da "faxina"? A conferir.

*Matéria alterada para correção de informação, por observação do comentarista Gesio Passos. O líder do PT na Assembleia se chama Rogério Correia, não Rogério Carvalho.

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