sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CARYBÉ O MAIS BAIANO DOS ARTISTAS

p/ Almandrade

 
Um artista com muitas homenagens na bagagem. Na história da arte, é um fenômeno raro a comemoração do aniversário de um artista em praça pública com a presença de cerca de um mil e quinhentos convidados, como os setenta anos de Carybé em 1981, no Largo do Pelourinho. As homenagens são merecidas, mas abafam a obra do artista, depois da festa, ela fala mais alto, reclama um olhar inteligente. Um trabalho invejável de quem dedicou uma vida a observação do mundo para eternizá-lo em obra de arte, ainda sem uma avaliação ou um estudo crítico mais depurado. 

A geração de artistas iniciadores do modernismo na Bahia, da qual faz parte Carybé, reinou por um bom tempo no cenário cultural baiano incentivada pelo Estado. Os artistas que vieram depois queixaram da falta de espaço e mercado dominados pelos modernos surgidos na década de 1950. Passaram-se os tempos. Atualmente, em nome da arte contemporânea houve um desprezo pelo passado que contaminou até a academia. É mais fácil se localizar um estudo acadêmico sobre um jovem artista, ainda sem trabalho suficiente para justificar um investimento conceitual do que sobre uma obra construída ao longo de um determinado tempo, que faz parte da história das Belas Artes na Bahia. 

Artistas como Carybé, Raimundo Oliveira, Genaro de Carvalho, entre outros vão passando despercebidos, esquecidos na parede de algum colecionador ou no canto de alguma reserva técnica. Esses artistas representam uma parte de nosso passado pouco estudado. Fazer e pensar a arte é sempre uma forma de debruçar sobre o trabalho do outro, é revisitar também sua própria cultura. “Não se navega o mar da história a bordo da cultura alheia. Cada um terá que fazer sua própria canoa” (Gerardo Mello Mourão). Participar da cultura contemporânea é conhecer e tirar partido da história local e da universalidade. 

O centenário do artista é um momento oportuno, no circuito de arte de Salvador, para pensar e interrogar a produção de um operário da arte e o meio ou ideologia cultural onde emergiu. Nesse caso existe uma rica superfície para responder às provocações ou intenções teóricas do crítico ou pesquisador. O compromisso do artista não era especificidade da arte enquanto um saber e a transgressão do repertório de signos artísticos, nem poderia ser no ambiente cultural de Salvador da época, mas renovou a arte baiana. Artista e etnólogo, Carybé registrou o cotidiano da cidade, foi um dos pioneiros do nosso modernismo tardio e construiu uma linguagem. 

Um artista múltiplo que atuou em vários suportes, desenhos, pinturas, talhas, gravuras e esculturas, aceitando os desafios de cada um deles, sem perder a unidade da linguagem estética adotada. Um trabalho gráfico, narrativo e escultórico. Um muralista que chega a surpreender a arte contemporânea, como no mural situado no interior do banco Bradesco da Rua Chile, um dos mais ousados e bem solucionados do artista, que merece um estudo à parte, infelizmente com sua visibilidade comprometida em função das necessidades operacionais do banco. 

A arte de Carybé mostra a versatilidade do artista e como o olhar é capaz de capturar os seres e as coisas através de uma linguagem plástica, herdada das primeiras escolas modernas. Carybé é um repórter visual que documenta o mundo social da Bahia, o amor, o sexo o trabalho e cenas do candomblé, faz uma composição plástica com o que é possível ver. Seu objeto de conhecimento é o habitante da cidade, a cultura afro, o folclore e as festas populares. Não importa a paisagem e sim o personagem, pescadores, prostitutas, lavadeiras, orixás, filhos de santo, animais. Com um repertório de traços, formas e cores o artista narra alguma coisa e ocupa o espaço do papel, da tela ou da parede, dinamiza e organiza a percepção. Com traços espontâneos e expressivos capta o humano pelo essencial, sem se preocupar com a perspectiva. Era um artista de formação moderna. 
 
Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

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