sábado, 24 de setembro de 2011

VERSO, POESIA E ESTÉTICA


 p/ Wilsom Rocha

A condição essencial da subjetividade lírica depende antes de tudo do domínio da arte poética, da técnica de versificação, que comporta uma forma estrutural em que o mundo sensível, a interioridade e individualidade poética, ou estilo, possam mais facilmente submeter-se
às formas teóricas que a arte exige, pois a estética, mais que uma necessidade, é uma exigência acima de tudo. Todos sabem que neste mundo sempre há quem escreva versos sem ser poeta. E também – como disse Tomachevski – que a língua vulgar contém tudo o que está na poesia, menos poesia.

Na era tecnológica em que vivemos, a decadência da vida civilizada está exaurindo a arte e secando as fontes da criatividade e da vida espiritual do homem. Por isso o conceito de poesia está morrendo na alma do homem contemporâneo, que parece estar-se voltando para a vida
tribal e fixando-se no psiquismo consumista, na irracionalidade do drama ecológico e na imensa e indomável economia das drogas.

Os poemas atualmente produzidos são quase sempre meros atentados contra a língua e a estética, sobretudo em um país provinciano e tradicionalmente iletrado como o nosso onde os pequenos literatos são tão abundantes e televisivos e os poetas se confundem com os fazedores de modinhas, como se a poesia fosse algo tão banal, descartável e massiva como a música popular.

Na conjuntura intelectual da Bahia, onde já não se vêem atualmente jovens poetas eruditos como Jair Gramacho, é reconfortante vislumbrar, contudo, algum brilho na produtividade de uns raros poetas emergentes, como, por exemplo, Carlos Loria, que prestou recentemente um valioso serviço às letras do nosso meio ao traduzir com perícia e brilho todo o fascínio, a magia e o lirismo genial de um dos maiores poetas do século, o norte-americano Edward Estlin Cummings (1894-1962). Além de poeta dotado de forte vocação lírica e bom tradutor, Carlos Loria é um artífice consciente das dificuldades. O seu ofício e seus livros, elegantes e agradáveis, são de boa categoria gráfica, como se vê em Cummings 20 Poemas, edição Código, Salvador, 1990; Casa Clara, Código, 1991, e Territor, Edições Audience of One, Salvador, 1993, ambos de excelente qualidade, poesia marcada pelos sinais pungentes da existência do homem, as cores e os eflúvios do cotidiano, a sombra e a memória da criatura e de seus objetos. Acontecimento sobretudo significativo é a sua tradução dos poemas de Cummings.

any man is womderful
and a formula
a bit of tobbacco and gladness
plus little derricks of gesture

(todo homem é um assombro
e uma fórmula
um pouco de tabaco e júbilo
e um que outro ademane)

Poesia atenta aos rumores e visões que a cercam, que se procura intimamente, obsessivamente buscando novos caminhos, hesitante entre vanguardismo e uma longínqua descendência surrealista, a voz poética de Almandrade (Antonio Luiz M. Andrade), também arquiteto e artista plástico, já com obras publicadas, caracteriza-se por uma dramaticidade não longe nem isenta das grandes preocupações vivenciais do homem contemporâneo, como se vê em seu último livro, Arquitetura de Algodão, onde se encontra esse instante de puro lirismo:

Quando vem
 a noite
 corro atrás
 do sono
 na certeza
 talvez
 de encontrar
 tua imagem
 no sonho.
             (Almandrade)

A força da poesia está no súbito confronto do espírito do homem com o
desconhecido, com o impacto da visão daquilo que não existia antes.

Wilson Rocha

Poemas de Wilson Rocha

DA MULHER 

                Comme l’arome d’une idée
                                             Valéry
Longa e clara cabeleira
no flanco dos quadris,
chama secreta ressurgindo
no ritmo flexível do sexo.


 
A VOZ FEMININA


Nem a escrita dos pássaros
nem os clarins da eternidade
desafiam assim o tempo,
a frescura do azul
e a doce transparência do cristal.
como é branca e nua a voz
feminina.


COMO A ORQUÍDEA 

As formas da orquídea
Embriagam os sentidos
E atingem a plenitude.
Esplêndidas reentrâncias
Na doçura das pétalas,
Feminina, de tão íntima.



A SAN JUAN DE LA CRUZ

Só os amantes e os deuses
Conhecem as forças cósmicas
Do amor sem limites
E da fé íntima dos grandes místicos.




OS DIAS ARDENTES

Como a fértil harmonia da mulher
Ou o inquietante aroma dos frutos
Acariciados pela língua do vento
A lucidez é uma imagem nua
Onde tudo sonha
Onde tudo evola-se
E treme como água
A escorrer sobre o umbigo.



PALAVRAS ALADAS

Palavras aladas do amor –
Prazeres e inquietações –
Como a época de grandeza incalculável
Em que dançávamos como Dionísio
E sentíamos a misteriosa e profunda
Sexualidade das mulheres de Safo
Que entendiam o amor como eternidade.



Num começo de manhã depois do carnaval e antes do aniversário da cidade desaparece Wilson Rocha, solitário, ignorado pela cultura local, poeta baiano nascido em Cochabanba (Bolívia) em 1921 que vivia exilado em sua própria casa. Na mesma casa onde um dia nos anos 50 do século passado, o respeitado poeta Jorge de Lima, passando por Salvador em uma de suas últimas viagens, despediu-se do Wilson. A linguagem poética clássica de sua obra só pode ser vista como um acidente na geografia cultural baiana que se destaca na paisagem pela força de ser uma poesia refinada, construída. São poemas que nos conduzem a territórios que ignoramos. Mas quem disse que os poetas falam daquilo que conhecemos? Ao contrário, eles enfrentam o desconhecido para desafiar a fragilidade do ser humano. Para Bataille: "A poesia não aceita os dados dos sentidos em seu estado de nudez, mas ela não é sempre, e até mesmo raramente ela é o desprezo do universo exterior". Foi isso que fez Wilson ao transformar o desencanto do presente em poesia, elevando a beleza a uma relação de inteligência e prazer com o mundo.

Os últimos anos de Wilson foram vividos em condições precárias, sem o reconhecimento que o seu trabalho merece, ele, que foi importante poeta segundo Jorge de Lima. Muitas idéias e questionamentos vêm a minha cabeça, depois de perambular por instituições culturais nos últimos três anos com dois de seus últimos livros, um de poesia e outro de crítica de arte. Meus argumentos foram insuficientes para convencer essas instituições da importância de suas publicações. Uma cidade que despreza seus poetas, seus artistas, seus escritores, seus intelectuais, o que celebrar? Mais uma vez a festa, o carnaval, o turismo. Nem mesmo a universidade, as escolas de letras se preocuparam em prestar a atenção na importância da poesia de Wilson para cultura brasileira. "Triste Bahia."

Quem decide sobre a cultura nessa cidade não percebe a diferença entre cultura e educação, entre cultura e entretenimento. Se não temos mais ouvidos para a música de um Caymmi ou para os sussurros de um João Gilberto, que sensibilidade vamos ter para uma poesia sofisticada de um poeta culto como Wilson Rocha?... Um poeta de muitas histórias, de muitas viagens, reais e imaginarias, que uma vez, em Buenos Aires, falou da importância de Machado de Assis para o grande Jorge Luis Borges. Desaparece o poeta mas a sua poesia não. Wilson Rocha é um caso à parte na poesia baiana, solitário, fora do tempo e do lugar, sem pátria, sua geografia é a antiguidade clássica, poeta que imagina a poesia como uma investigação da razão e do sensível, capaz de destilar o mais banal da natureza na mais pura fantasia poética. Foi um crítico de arte atuante na Bahia, juntamente com os irmãos Clarival e José Valadares, quando o meio cultural baiano ainda ignorava as linguagens artísticas modernas, no pós-guerra. Incentivador da renovação da arte baiana, principalmente nos anos 1960, teve atuação decisiva para a realização da primeira Bienal de Artes Plásticas da Bahia.


Salvador, 2005
Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

Setembro de 2011 - 90 anos do poeta

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