segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A máquina da miséria

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E como se atravessasse loucamente
os canaviais de uma Goitacá extinta
e da torre da usina uma fumaça lenta

se adensasse no ar de meus pulmões
já ofegantes; e facões se afiassem
na lima de pérola, e suas lâminas gastas

rapidamente se tornassem reluzidas
nos aceiros da planície, nas ruínas  
da casa-grande, nos escombros da senzala,

a máquina da miséria se revelou
para quem de a enxergar se miopia
e só de a ter imaginado se contorcia.

Apresentou-se clara e sem sangue,
sem grito, sem luta que a tombasse,
já sem muro ou ideologia

que apaziguasse o seu movimento,
sua ira misturada à terra, à cerca
ao suor rançoso e à fadiga,

nada nela anulava o próprio nada
nos pratos, nos bolsos, no vazio
do estômago sufocado e sulfúrico.  

Apresentou-se sem ironia e, calmamente,
entornando o caldo sobre a moenda,
chamava à caldeira o coração moído

de sulco em sulco, cinzas densas
caídas entre foices e lanças,
o cortador se aparafusasse frouxo

na roldana tocada à lágrima
– modo de irrigar os eitos –
e a engrenagem funcionasse

nesses tempos modernos onde
ela, maquiavélica, maquilasse
mãos rachadas, rasas e ridículas.

Era infame aquele andamento,
do cortador a danar os braços,
do maquinário a tinir os nervos

enquanto a cidade convalescendo
entre os mourões a devorar o chão,  
cana por cana, fogo por fogo,

afugentava a desgraça latente
do açúcar a adoçar os brasões,  
como se a vida não fosse ardente

para aqueles negros em grilhões,
sem trancar o engenho do capital,
seus coronéis e seus lamparões.

Foi por um segundo a luminosidade
refletida sob o negrume da fuligem,
mas tempo suficiente para que eu,

aniquilado pela usura que me valia,
pudesse adivinhar o segredo da máquina
que diante de mim, imóvel, se retorcia:  

a partilha errada do único pão
entre lobos selvagens e famintos,
mastigado com cobiça e danação.

Tudo se apresentou num único piscar
involuntário de minhas pupilas lassas
que à realidade se habituaram esquivas

e dessa revelação estive sedicioso
diante dos Airizes e das Sapucaias
que nem a Santa Cruz pode salvar

o Cupim roendo as almas das gentes.
Nesse breve relance o cortador quis
se desparafusar num instante enquanto

de longe buscava a minha compreensão,
mas já fraco, miserável e sem coragem,
como os dedos intocáveis na Cistina,

comprimi o passo, adentrei a lavoura,
segurei o bagaço e do vinhoto solto no ar
fiz  meu alucinógeno e minha eucaristia.

No Rato o sol retirava seu último feixe
e a planície às escuras se recolhia serena
enquanto a máquina da miséria, lúcida,

mais se movia frente às minhas retinas
agora inequivocamente abertas e irritadas
ante os ciscos anuviados da Goitacá.     
      

    
 Fernanda Huguenin
Doutora em etnografia pela UENF

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